
E ele estava lá, diante de mim. Eu contava empolgada sobre minhas recentes aventuras, ele me perguntava das marcas na minha barriga. Eu me olhava no espelho e não via as marcas que ele estava tão chocado em ver.
Em um dado momento, ele tocou meus braços olhando para meu reflexo no espelho e disse: "como você pode não estar vendo?". Mas eu não via nenhuma marca. Ele enxergava meu coração, mas não passava do limite de me perguntar o que eu havia feito. Não parecia querer saber quais marcas ele mesmo deixara ali, quando seu túmulo gritara "adeus" num silêncio ensurdecedor.
Haviam charadas em toda a volta. As pessoas iam e passavam e voltavam, preocupadas com suas pressas, compromissos e agonias. Só ele, e só eu estávamos parados, observando que naquele espelho, nossos reflexos ficavam cada vez mais enevoados.
Não estávamos em um lugar aberto, mas era um quarto. Um quarto com paredes brancas, um lustre de cristal antigo, pendurado baixo, como os antigos deixavam para colocar velas. Os detalhes da janela e da porta fechadas em madeira escura. Mas ainda assim, pessoas entravam sem abrir portas e saíam também, como se estivessem passando por uma rua movimentada. Estávamos cercados de almas que iam e vinham. E ali, só se via a névoa, e no reflexo, eu e ele. Os que passavam ao nosso redor, passavam sem serem notados e sem nos notar.
Mas ali havia algo de etéreo. Apesar da briga tensa que havia entre nós, não se ouviam gritos. Apenas as palavras duras, onde "eu te amo" soava como "eu te odeio"...ou "eu me odeio"? Faz mais sentido. O que sentíamos um pelo outro, tão forte que nos fazia nos odiar por não nos controlarmos como deveríamos.
E as pessoas passavam. E a noite era iluminada, mais clara que o dia. Luzer avermelhadas e arroxeadas, e nuvens escuras, que davam mais contraste às primeiras estrelas.
Havia sido derramada nele. Eu me diluía na imagem no espelho, e ele virava a névoa escura que pertencia às nuvens.
E em nossa volta, apenas almas vagando. Errantes, desinteressadas, num movimento quase mecânico, passando, indo e vindo, sem parar.
E entre eu me diluindo como uma pequena nascente de rio e ele se tornando uma nuvem de vapor carregado esperando o momento de chover, estávamos misturados por um mnilésimo de segundo. E eu segui, flutuando sem saber como tinha saído daquele quarto, perguntando a todos se haviam o visto. E já chovia. Mas ele não estava mais lá.
E foi nesse exato momento que eu acordei.
O meu inconsciente é foda quando quer....rsrs...
Ouvindo: "Hanging Tree" - Blackmore's Night

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